Lição
A teoria — Modelo Epidêmico SIR
Uma epidemia tem dois finais diferentes, e esta página imprime ambos. O limiar de imunidade de grupo é o ponto em que cada infeção deixa de produzir mais do que um sucessor — onde a curva vira. A taxa de ataque é a fração da população que foi infetada quando tudo acabou mesmo. Não são o mesmo número, nunca são o mesmo número, e é da distância entre eles que trata esta lição.
O que significa cada símbolo
R₀- o número básico de reprodução,
β/γ— quantas pessoas uma infeção contagiaria numa população ainda toda suscetível. Um quociente de duas taxas, portanto descreve um agente num contexto, nunca um agente sozinho. s- a fração suscetível
S/N. Quase tudo o que se segue é uma afirmação sobre esta grandeza e não sobre o tempo, e é por isso que os resultados não dependem da rapidez do surto. H- o limiar de imunidade de grupo,
1 − 1/R₀: a fração imune à qual o crescimento para. A página imprime-o. A- a taxa de ataque — a fração alguma vez infetada, assim que
Ivolta a zero. A página também a imprime, como «total de infetados».
De onde vem a fórmula
- Perguntemos quando o surto cresce. O compartimento infecioso varia segundo
dI/dt = βIS/N − γI, que se fatoriza emI(βs − γ). ComoIé positivo durante um surto, o sinal é decidido só pelo parêntesis: a infeção cresce enquantoβs > γ, ou seja enquantos > γ/β = 1/R₀. Repare que é uma condição sobre a fração suscetível, sem tempo nenhum lá dentro. - O ponto de viragem é então exatamente
s = 1/R₀, e a fração que já não é suscetível nesse instante vale1 − 1/R₀. É o limiar de imunidade de grupo, e é o número que a página imprime — 33.3% na predefinição da gripe, comR₀ = 1.5. É também aí que a curva dos infeciosos atinge o máximo, o que se pode confirmar no gráfico: o pico não é um acaso de forma, é esta condição a cumprir-se. - Agora o passo que costuma saltar-se. No limiar
dI/dt = 0— mas isso não éI = 0. Continua ali uma população infeciosa grande, e cada um deles continua a contagiar à taxaβs. Menos de um sucessor cada, portanto os números descem; mas descer de um pico leva tempo, e cada uma dessas infeções cai em alguém. A epidemia não para no limiar: atravessa-o por inércia. - Para achar onde ela para de facto, é preciso eliminar o tempo. Divida a equação dos suscetíveis pela dos recuperados:
dS/dR = −(β/γ)(S/N) = −R₀s, que integra ems = s₀·e^(−R₀·r), sendora fração recuperada. No fim não resta ninguém infecioso, logor∞ = 1 − s∞, e substituindo obtém-se a relação de tamanho final:s∞ = s₀·e^(−R₀(1 − s∞)). A taxa de ataque éA = 1 − s∞. É transcendente —s∞aparece dentro e fora da exponencial — logo não há forma fechada, e é por isso que esta página integra em vez de avaliar uma fórmula. - Ponha os dois números lado a lado e a diferença é o excesso. Com
R₀ = 1.5a página imprime um limiar de 33.3% e um total de 58.5%: o surto passa 25 pontos além do ponto em que deixou de crescer. VarraR₀e o excesso não é monótono — sobe até cerca de 30 pontos perto deR₀ ≈ 2e depois volta a cair, anulando-se quandoR₀ → 1porque quase nada se propaga, e também comR₀grande porque limiar e taxa de ataque se comprimem ambos contra os 100%. ComR₀ = 5são 80.0% contra 99.3%; comR₀ = 15, ao jeito do sarampo, 93.3% contra 100.0%. O pior excesso cai exatamente na gama da gripe pandémica e do SARS-CoV-2 inicial.
Como ler o que vê
Três curvas e três números. As curvas são os compartimentos; a que vale a pena seguir é a corcova dos infeciosos, cujo pico é o passo 2 a acontecer. Dos números, «pico de infetados» e «total de infetados» respondem a perguntas completamente diferentes: o primeiro diz quantos estão doentes ao mesmo tempo, que é o que importa aos hospitais, e o segundo quantos o estiveram em algum momento, que é o que a relação de tamanho final prevê. Na predefinição da gripe são 6.4% e 58.5%, e o primeiro nada diz sobre o segundo. O limiar de imunidade de grupo por cima não é nenhum dos dois: é onde o primeiro vira.
- Pressupõe
- Uma população fechada e bem misturada — sem nascimentos, sem mortes, sem viagens, e cada suscetível igualmente propenso a cruzar-se com cada infecioso.
βeγconstantes, ou seja sem mudanças de comportamento, sem estações, sem intervenções a meio. Imunidade permanente, ninguém regressa ao grupo suscetível. E um modelo determinista, razão pela qual aqui um punhado de infeciosos desencadeia sempre um surto, quando na realidade números pequenos se extinguem muitas vezes por acaso mesmo comR₀ > 1. - Falha quando
- A expressão «limiar de imunidade de grupo» convida a uma leitura que a matemática não sustenta: a de que uma epidemia entregue a si mesma acaba ali. Não acaba — acaba na taxa de ataque, que o passo 5 mostra poder estar 25 pontos acima. O limiar é um alvo de vacinação, um nível a que se pode chegar sem epidemia; alcançado por infeção, custa o limiar e o excesso por cima. Essa distinção não teve nada de académico em 2020. Mais duas cautelas para quem leve estes números a sério: a boa mistura é aqui a hipótese menos realista, e afrouxá-la em geral baixa tanto o limiar como a taxa de ataque, porque as pessoas muito ligadas são infetadas cedo e deixam de servir de ponte; e esta página parte de dez infeciosos em vez de uma semente infinitesimal, pelo que os seus 58.5% ficam mesmo acima dos 58.3% do limite clássico
s₀ → 1.
Problema resolvido na íntegra
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Uma infeção com R₀ = 3 a propagar-se para além da fração imune 5 passos
Uma infecção tem R₀ = 3. Determine a fração que precisa estar imune para interromper a sua propagação — e mostre que a epidemia continua a crescer além desse ponto.
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R₀ é o número médio de novos casos que um caso produz numa população totalmente suscetível: a taxa de transmissão dividida pela taxa de recuperação. É a razão entre duas taxas, razão pela qual não tem unidades nem escala de tempo.
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Um surto cresce enquanto cada caso se multiplica. Assim que parte da população fica imune, apenas a parcela suscetível conta, portanto o crescimento continua exatamente enquanto essa parcela exceder 1/R₀.
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Inverta o raciocínio. O simulador acima exibe esse limiar, e ele é toda a base da política de vacinação — você nunca precisa atingir todas as pessoas.
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Mas o limiar é onde o crescimento para, não onde a epidemia para. Pessoas infectadas ainda estão contagiosas nesse momento, portanto os casos continuam a se acumular além dele.
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Esse excesso é a razão pela qual o pico e o limiar são números diferentes, e por que uma epidemia sem mitigação termina com muito mais do que a fração do limiar infectada.
Resposta
66.7%. O pico ocorre com cerca de 30% de infectados ao mesmo tempo, e — o ponto mais facilmente despercebido — a epidemia continua além do limiar em vez de parar aí, de modo que o tamanho final ultrapassa significativamente esse valor. A imunidade de rebanho é uma afirmação sobre o momento em que a curva muda de direção, não sobre o fim do surto. E como o limiar é 1 − 1/R₀, ele é brutalmente sensível no topo: o sarampo, com R₀ ≈ 15, exige 93.3% de cobertura, razão pela qual o sarampo retorna primeiro sempre que as taxas de vacinação caem.
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Percurso de aprendizagem
Crescimento limitado
Referências (3)
- The compartment model and the threshold theorem this tool implements: W. O. Kermack & A. G. McKendrick, "A contribution to the mathematical theory of epidemics." Proceedings of the Royal Society A 115, 700–721, 1927.
- The lesson's step 4 — where the transcendental final-size relation comes from: J. C. Miller, "A Note on the Derivation of Epidemic Final Sizes." Bulletin of Mathematical Biology 74(9), 2125–2141, 2012.
- Thresholds, final sizes and the overshoot, treated together: H. W. Hethcote, "The Mathematics of Infectious Diseases." SIAM Review 42(4), 599–653, 2000.